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  • Braille na impressora
  • 10/02/2015 20:16


  • Flávio Aguiar

    Você já ouviu falar em Shubham Banerjee?

    Acho que não.

    Ele tem treze anos, adora futebol americano (ver e jogar) e quer ser um engenheiro ou um cirurgião. E mora no Vale do Silício, na California, a pátria/meca/paraíso para os aficcionados do mundo virtual.

    E lá ele inventou algo. Uma impressora, nada mais, nada menos. Só que ela imprime em Braille, para deficientes visuais. E tem mais: ele a criou usando apenas materiais Lego – é, esses que você, depois de receber ou dar a seu filho(a), passa o dia a praguejar contra quando se vê obrigado a montar aquilo que deu com a melhor das intenções.

    O uso deste tipo de material permitiu um rebaixamento do custo extraordinário. O custo estimado de uma impressora destas, se o produto chegar ao mercado, será de US$ 350. Já outras, convencionais, podem custar até US$ 2 mil. E pesar muito mais do que as legos.

    Se o interesse por este aparelho chegar aos países do Terceiro Mundo, poderá haver uma explosão das vendas, inclusive para agências públicas. O número de cegos no mundo chega aos 200 milhões. E a maioria deles conta com fontes mais rudimentares de leitura ou nunca aprendeu a ler.

    Shubham já está pensando em outros projetos para cegos: um laptop cuja tela reproduza informações em Braille, onde o cego possa literalmente ler pelo tato.

    Impossível? Ora, isto demora apenas mais um pouco...
  • Inteligência artificial: tantos pró quantos contra
  • 04/02/2015 16:55


  • No filme The Imitation Game, dirigido por Morten Tyldum, o matemático britânico Alan Turing (Benedict Cumberbatch), confrontado com o desafio de decodificar as mensagens transmitidas pela máquina Enigma, da marinha nazista, defende a tese de que para derrotá-la é necessário criar uma outra, ao invés de confiar apenas na inteligência humana.

    O argumento de Turing se centra na ideia de que é necessário criar uma “inteligência” capaz de pensar mais e mais rapidamente do que a máquina nazista, em parte porque há uma guerra em curso e uma luta contra o tempo, em parte porque a rapidez na troca de referências de encriptação é uma das chaves do sucesso da Enigma.

    Entretanto, no filme fica claro que a máquina de Turing tem sucesso (o que aconteceu na vida real) devido a dois fatores humanos: 1) a equipe com que ele trabalha consegue identificar por conta própria uma frase – Heil Hitler! – que aparece em todas as mensagens mais ou menos na mesmo posição; e 2) os britânicos conseguem ocultar dos nazistas (e do resto do mundo, o que também é real) que conseguiram decifrar o código.

    A partir daí coloca-se uma escolha que tem algo de sinistro. A Enigma enviava mensagens aos submarinos e navios alemães sobre a posição de navios aliados. Para evitar que os nazistas desconfiem da decifração, é necessário evitar que todas as mensagens decifradas impeçam os ataques de afundar seus alvos. Esta é uma escolha inteiramente humana: que alvos salvar, que alvos abandonar à própria sorte.

    De todo modo, o filme aponta a chave de um problema que vem agitando os meios informáticos hoje em dia. A “máquina de Turing”, como ela ficou conhecida depois de sua revelação ao mundo décadas depois, é uma das mães dos atuais computadores e das atuais máquinas de inteligência artificial. A questão é: podem estas máquinas representar um perigo para a humanidade? Podem elas implicar em nossa destruição?

    As opiniões se dividem.  Elon Musk, da SpaceX e Testa Motors, Bill Gates, o fundador da Microsoft, e Stephen Hawkins, o físico teórico, pensam que sim; Eric Horvitz, o atual diretor-presidente da Microsoft, pensa que não, segundo artigo de Alex Hern no The Guardian.

    A questão não se limita a encarar as hipóteses mais exploradas pelos filmes e contos de ficção científica, dos computadores tipo Hal (2001, Uma Odisseia no Espaço) que decidem pensar por conta própria e saem exterminando quem esteja contra eles, ou outros exterminadores do futuro, ou ainda computadores que decidem começar uma guerra nuclear por conta própria. A questão compreende a ideia de que as máquinas de inteligência artificial podem potenciar a capacidade humana de tomar decisões erradas ou de simplesmente fazer besteiras e atrocidades.

    Alex Hern organizou no jornal uma enquete sobre o que pensam os leitores. Se você correr, ainda poderá votar. Há quatro opções: não muito preocupado, um pouco preocupado, bastante preocupado e aterrorizado. As opiniões estão divididas: 36, 18, 23 e 23% dos leitores votaram nas opções assinaldas, respectivamente.

    Eu votei na última opção: aterrorizado. E você, no que votaria?
  • Água, inovação, governança
  • 02/02/2015 18:53


  • Flávio Aguiar

    Falta d’água não é um problema exclusivo de São Paulo nestes últimos tempos. Relatório da União Europeia diz que, assim como na capital paulista, muitas cidades do continente sofrem ameaças simultâneas de inundações e de falta d’água para seus cidadãos. Ver: “Cities of tomorrow - Challenges, visions, ways forward (UE)”.

    A causa apontada é a mesma: extensão da placa asfaltada ou cimentada e a falta de “solo natural e úmido”, embora sem o mesmo grau de São Paulo.

    A solução apontada é que é original, em relação ao que acontece em São Paulo: ela liga a governança a uma cooperação muito mais intensa entre autoridades do que a que existe até recentemente não só na capital mais populosa da América do Sul, mas no Brasil inteiro.

    Por quê? A visada de uma outra parte do mundo pode nos ajudar a entender esta parte do problema. E outras também.

    Em 2014 a Califórnia, nos Estados Unidos, registrou uma das maiores secas de sua história, descrita como entre as três maiores em cem anos. A seca teve efeitos devastadores em zonas urbanas, além das agrícolas: incêndios de grandes proporções, um prejuízo de 2,2 bilhões de dólares, perda de 17 mil postos de trabalho, queda no fornecimento de energia, no turismo e nos serviços de recreação. Cem por cento do território do estado esteve sobre seca severa, 80% sob seca extrema.

    Havia causas naturais: meteorologistas apontaram que a permanência de uma zona de alta pressão no Pacífico Norte impediu, durante vários anos anteriores, a chegada de chuvas e tempestades de porte ao território do estado.

    Mas o estado reagiu. Desde o começo das previsões negativas o governador declarou um estado de emergência que permitiu às autoridades municipais tomarem medidas de porte. Quais? Limitação e racionalização no uso da água, fornecimento de manuais com instruções e esclarecimentos para toda a população, nos casos mais graves proibição de lavar carros, aguar jardins e lavar pavimentos externos, fixação de quotas por domicílio, autorização para encher piscinas particulares ou de hotéis somente com água trazida de outros locais, estabelecimento de multas e outras penalidades pesadas aos infratores , contenção do uso de água das indústrias e nos restaurantes. Mas isto só foi possível de implementar graças a uma fiscalização intensa e local. Numa cidade como São Paulo e outras do entorno, isto só seria possível mediante a participação das prefeituras e das subprefeituras.

    Além disto, foram intensificadas medidas que já vinham sendo planejadas há dez anos: avanço na tecnologia de reaproveitar rapidamente a água de esgoto, dessalinização de águas (a Califórnia é um estado costeiro) do mar, com participação das universidades e institutos de pesquisa da área.

    Possível em São Paulo e no Brasil? Sim, desde que não haja a subordinação da tomada de medidas urgentes ao calendário eleitoral, como houve no caso paulista.
  • Histórias da Inovação XII: O nosso chuveiro elétrico
  • 02/02/2015 18:51


  • Flávio Aguiar

    Pois é, o chuveiro elétrico nasceu no Brasil, quem diria...

    Mas houve antecedentes. Dizem os sites sobre o tema “ducha”, que estas, em contraste com o “banho de banheira”, nasceu por imitação humana das cascatas naturais. Si non e vero...

    Mas o fato histórico é que as duchas – primeiramente coletivas – foram popularizadas na Europa pelos gregos e depois pelos romanos, com seus aquedutos e no caso dos últimos, suas conquistas miltares e comerciais.

    Mas o seu manejo era manual, e custoso fisicamente. Muitas vezes dependia de escravos que tinham de levar a água para os banhistas das classes superiores.

    A primeira ducha com bombeamento de água nasceu – é claro – na Inglaterra que industrializava, patenteada em Londres por William Feetham em 1767. Desde o começo do século XIX diferentes modelos de ducha começaram a ser utilizados na Europa. Mas seu uso se ampliou consideravelmente graças à sua adoção pelo Exército Francês em 1870, dentro da vaga higienista que se propalava no país e no continente. A seguir as duchas se popularizaram na Áustria.

    Entretanto, foi nos anos 20 que as duchas se tornaram um objeto de consumo generalizado, primeiro nos Estados Unidos e também na Europa. Uma das razões para tanto foi a diminuição do consumo de água: em média 80 litros por ducha, contra 150 do banho de banheira. Com os custos do fornecimento de água – e do aquecimento, sobretudo central, pesando no bolso da classe média ascendente e mais numerosa nos centros urbanos, as duchas foram ganhando espaço.

    Foi por este tempo que se inventou o chuveiro elétrico no Brasil, país onde muito raramente se usa o aquecimento central em residências. Reza a tradição que o primeiro modelo foi criado por um engenheiro – Francisco Canhos Navarro (1914 – 1988) – em Jaú, no interior do estado de São Paulo. Por este tempo, o método de aquecimento mais usado era o do chamado “torpedo”, também dito “boiler”, que consistia numa serpentina que passava por dentro ou por trás de um fogão a lenha e acumulava água aquecida dentro de um reservatório ligado ao encanamento.

    Mas havia problemas, como o de transportar água quente para pisos superiores ou mesmo para os chuveiros elevados no mesmo piso onde ficava o fogão.
    Havia métodos alternativos, não muito confortáveis: minha avó, criada no pampa gelado no inverno, colocava um balde d’agua no sol durante o dia. À noitinha a água do balde estava, digamos com boa vontade, “meio aquecida”...

    Uma curiosidade: um dos primeiros chuveiros que misturava água quente e fria foi instalado por Santos Dumont, o nosso pai da aviação, em sua casa em Petrópolis, no estado do Rio. Consistia num balde elevado, com um divisor no meio: de um lado, entrava a água fria, do outro, por bombeamento, a água quente. Sob o balde, Santos Dumont conseguia com alavancas e roldanas levantar a divisória e abrir o fundo do balde, onde furos feitos à mão o transforvam num chuveiro. O modelo ainda lá está, na casa dele, aberta aos visitantes.

    Em Jaú, Navarro vendia seu aparelho de casa em casa. Em 1940, enquanto empresas como a FAME ou a Sintex, na capital paulista, já industrializavam o produto, ele inventou um novo modelo, o primeiro com ligação automática, dispensando a necessidade de ligar a eletricidade a cada uso, e com uma baixa resistência para obter água morna e uma alta para a água mais quente, necessária nas regiões, nos meses e nos dias mais frios.

    Como um amador, Navarro negligenciou o processo de patenteamento dos seus modelos, e o automático veio a ser patenteado por Lorenzo Lorenzetti em 1950, 1953 ou 1955, conforme diferentes fontes ou talvez até diferentes tipos. Com a industrialização crescente, paralela à urbanização, e a progressiva substituição dos fogões a lenha por fogões a gás nos lares da classe média e também do operariado urbano no país, o chuveiro elétrico tornou-se preferencial. Uma das razões para tanto é o potencial para baixo uso de energia, apesar da quantidade necessária para aquecer a água ser grande, devido ao fato de só ser necessária enquanto o aparelho está em uso.

    Em 1970 a empresa Corona produziu o primeiro modelo inteiramente de plástico, que se tornou o favorito devido, além do custo menor, a razões de segurança, menos propenso a acidentes elétricos do que os de metal.

    No momento, o Brasil exporta chuveiros elétricos – numa variedade muito grande de modelos, adaptáveis a diferentes situações climáticas – sobretudo para a Venezuela, a Colômbia, o México e o Reino Unido. Negociações estão em curso com a China: se efetivas, elas farão o chuveiro elétrico bombar no consumo mundial.

    Um registro: recomenda-se que uma ducha dure, em média, 10 minutos, e que, durante o ensaboamento, se feche a torneira, especialmente nestes tempos de crise hídrica em nosso país. Entretanto, os brasileiros gastam, em média, de 20 a 30 minutos numa ducha, e com a torneira sempre ligada (assim como quando escovam os dentes). Sugestão: deixemos para cantar fora do banho, e concentremo-nos na rapidez do mesmo.

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    Histórias da inovação VIII - Os enigmas do enigma continuam
    Histórias da Inovação VII: Aventuras e desventuras de um inovador brasileiro
    Histórias da Inovação VI: Inventar a Roda
    Histórias da Inovação V: “Serendipity"
    Histórias da Inovação IV: e o lápis?
    Histórias da Inovação III: o longo caminho até a popular “BIC”
    Histórias da Inovação II: Augusta Ada Byron, depois King, Condessa de Lovelace (1815 – 1853)
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  • Computador: o filho malcriado
  • 02/02/2015 18:41


  • Flávio Aguiar
     
    Lembra de como era ter um filho(a) malcriado(a)?
     
    Antigamente eles(as) faziam coisas como mostrar a língua, se fechar no quarto, dizer palavrões fora do lugar, afrontar pais, mães, vovôs e vovós, ou, como dizia o Vinícius de Moraes (“Poema Enjoadinho”), “beber shampu, chupar gilete, atear fogo no quarteirão”.
     
    Hoje a coisa é assim: você manda dinheiro pra ele(a), que vive já em outra cidade, em Yangom, Nova Delhi, Tel-Aviv, Damasco, Lagos, Cancún, ou numa comunidade chapada na Chapada dos Guimarães, pra ele(a) sobreviver durante seis meses e ele gasta tudo no dia seguinte comprando uma moto (talvez de segunda mão) ou ela gasta tudo indo ao cabelereiro. Bom, hoje em dia é capaz de acontecer exatamente o contrário: ela gasta tudo na moto e ele no cabelereiro. O tempora, o mores!
     
    Enfim: a ideia é que você projeta, com toda a boa vontade, uma coisa, e ele(a)  faz inteiramente outra, com má vontade.
     
    Pois é.
     
    Os filhos pós-modernos do maquinário do dia-a-dia são os nossos computadores, laptops, iphones, ipads, o escambau da parafernália indispensável ao ser humano da era digital.
     
    Você clica aonde quer ir, e ele te manda alhures: ao site que vende sei-lá-o-quê, ou ao que exige uma atualização qualquer, ou a uma pesquisa sobre se você gosta de gravatas pink, ou ainda diz que você precisa baixar aquela porcaria que você não quer baixar. E às vezes não te deixa sair disto, mesmo que você clique o botão x no alto da tela, no umbigo, ou mais embaixo, ou onde for. Aliás, muitas vezes, quando você clica o botão x é que a porcaria aparece.
     
    Estas cenas acima descritas não são nada. O pior, por exemplo, é quando você está recebendo, por causa de um amigo comum, o embaixador da Estrogosnóvia, uma país europeu exótico e atrasado (aliás, hoje, na Europa, só tem país exótico e atrasado, destes que derrubam direitos humanos; o estado do bem estar social, por pior que este bem estar pareça ser, virou a América do Sul), e vai mostrar para ele alguma coisa no computador.
     
    Aí você clica no ícone das paisagens de sua terra natal e aparece um site com imagens pornôs de um homem e uma mulher, logo mais outro homem e outra mulher, e ainda mais algumas sombras que você não consegue distinguir se são uma coisa ou outra, todos e todas fazendo juntos aquilo, e mais aquilo e ainda mais aquiloutro que você nunca sonhou fazer ou sequer sabia que existia, sem falar na jibóia e no buldogue que estão na sala de espera.
     
    Vermelho, você se vira para o embaixador e fica mais vermelho ainda,  quando ouve ele dizer:  ‘Oh, great, I will come back some other time when your family is not here, so we will have fun together!’. A partir dali o churrasco que você planejou, ou a macarronada, parecem apenas uma festinha de jardim da infância.
     
    Pois é.
     
    No caso do seu filho e da sua filha, costumava-se dizer eram malcriados porque andavam em má companhia. Mas no caso do seu passaporte ao mundo virtual acontece a mesma coisa. Eles se tornaram vulneráveis a alguma coisa que se chama malware, uma abreviação para malicious software, um vírus, verme, linque, ou qualquer coisa do tipo que foi introduzido no aparelho e que governa os contatos onde você não reina mais.
     
    Bom, se foi você o responsável, visitando aquele site de sexo transtudo ou indo atrás de informações sobre operações ilegais na Estrovônia (vizinha da Estrogosnóvia), você não tem do que reclamar. Mais ou menos como quando, nos velhos tempos, os pais pediam a um tio que levasse o filho no bordel  e recebessem de volta, anos  depois, um cafetão empedernido; ou mantinham  a filha presa em casa a sete chaves e depois, pensando ter uma freira no quarto, descobrissem ter criado uma Salomé desvairada com Herodes, João Batista, centuriões romanos, sibilas estouvadas, etc., sobretudo etc., assim que ela pusesse o pé na rua.
     
    Entretanto, isto tudo pode ter acontecido com seu querido aparelho – do qual suas vidas pessoal, profissional e outras dependem – porque você meramente fez uma inocente pesquisa Google, Yahoo, MSN, ou entrou no Facebook, ou ainda mandou atualizar o seu Adobe, Java ou Cingapura, ou sabe-se lá o quê, já que você não lembra mais, ou clicou sem querer naquele ícone que parecia uma oferta de langerie (pensando num presente para sua consorte) ou cueca (para o príncipe consorte) e que na verdade lhe levou a descobrir o que se fazia não só em Sodoma como em Gomorra também.
     
    Claro: estas companhias vendem suas infos e identidades (as suas, não as delas) para quanta empresa de publicidade existe, além de passarem seus dados para a National Security Agency (mas um pouco também para a Coreia do Norte). E depois você que se vire com as pauladas que receber com seus cliques.
     
    Quem manda você clicar?
     
    Para se ver livre destes pesadelos, você pesquisa, e descobre que deve fazer atualizações, manter ligado o firewall, evitar spams e sites suspeitos, ter o Microsoft Security Essentials, além do Verificador de Segurança Microsoft Windows Live, controlar as Janelas Pop-Up, evitar as falsas ameaças, isto é, não ligar para avisos salvadores de seu aparelho que está cheio de formigas no sótão ou que anda de arrastos quando deveria estar correndo a mil, sem falar em que você deve ter o Trojan.Win32/Antivirusxp e evitar o Spyware...
     
    Nesta altura você quer desistir. Mas daí se rende de vez ao poema do Vinícius, glosando:
     
    “Computador? Melhor não tê-lo...
    Mas se não o temos, como sabê-lo”?

    Publicado em 28/01/2015.
  • Histórias da Inovação XI: Fogão a gás, fogão a gás, quanta saudade você me traz...
  • 23/01/2015 16:31


  • Flávio Aguiar

    O título é uma glosa da música “Lampião de gás”, de Zica Bérgamo, gravada por Inezita Barroso em 1958, um sucesso.

    Enquanto Inezita gravava a valsa, eu, deslumbrado, assistia transformações incríveis na paisagem cotidiana – além do campeonato do mundo de futebol virar brasileiro, ganho pela primeira vez neste mesmo ano. Para meus olhos ainda hoje encantados nenhuma mudança foi mais radical do que a chegada na casa dos meus pais, com música e fanfarras de modernidade, do fogão a gás.

    Para além do saudoso fogão a lenha, aquilo mudou extraordinariamente a vida das mulheres. Antes entregues a fainas de horas e horas diárias ao trabalho de limpar o forno do fogão a lenha, de raspar a fuligem das panelas, de “areá-las” (um termo que hoje quase não existe mais) no fundo do quintal, e que consistia em esfregá-las com areia ou pó de tijolo para raspar a gordura. Agora as mulheres mais pobres, as empregadas domésticas, tinham tempo para aprender a ler nos livros escolares que íamos deixando para trás, cheias de dobras nos cantos, que chamávamos de “orelhas de burro”.

    O fogão a gás... ah, o fogão a gás foi criado em 1820, na Inglaterra. Em 1826 um certo James Sharp patenteou-o, em Northampton. Em 1836 ele abriu uma fábrica. Em 1851 ele foi apresentado na Feira Mundial de Londres. Por esta época, Alexis Soyer, o chef de cuisine do Reform Club londrino, ambos dentre as mais famosas referências culinárias da capital inglesa, adotaram o fogão a gás. Por volta de 1880 ele tornou-se popular na Inglaterra, graças ao fornecimento disseminado de gás encanado.

    Mas na Europa Continental e nos Estados Unidos o fogão a gás só veio a ser adotado no começo do século XX, quando também os modelos incorporaram o forno, sob a propaganda de que eram mais fáceis de limpar do que os tradicionais, a lenha.

    A invenção do termostato, em 1923, permitiu a incorporação de uma válvula de segurança que detém o fornecimento do gás para o bico de saída se este não estiver aceso durante algum tempo. Isto permite que hoje, por exemplo, no fogão aqui de casa haja um dispositivo de segurança que faz com que a continuidade do fluxo exija que eu pressione o bico durante vários segundos antes de largá-lo, algo contra crianças acendendo-os por descuido, curiosidade ou maldade...

    Em 1901 o governo do Estado de São Paulo instalou o primeiro modelo de fogão a gás no Brasil, no palácio oficial. Mas até a década de 50 o fogão a gás era um apanágio da elite. Foi com o processo de substituição de importações, da criação da indústria de consumo da hoje chamada linha branca, que o fogão a gás se tornou um ícone do consumo de classe média no Brasil.

    Mas ele não veio sozinho. Lembro que sua chegada em minha casa, relegando ao ferro velho o fogão a lenha (também saudoso), foi acompanhada por uma profunda reforma em toda a área hoje chamada de “serviço”, com a geladeira (então chamada “frigidaire”), o chuveiro elétrico (substituindo o antigo “boiler” de serpentina, atrás do fogão), e o telefone direto (mas ainda sem interurbano, que precisavam ser marcados com a telefonista, com dias de antecedência). 

    Tudo fruto da política de valorização dos salários (embora de classe média, meus pais eram assalariados) retomada pelo finado dr. Getúlio e mantida por Juscelino, que fez, parece, de 1958 o ano em que o salário mínimo tenha sido, relativamente, o maior da nossa história.

    Fogão a gás, fogão a gás...

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    Histórias da Inovação I: O primeiro algoritmo
  • A Guerra do Futuro no Presente
  • 22/01/2015 16:29


  • Flávio Aguiar

    A Guerra Digital do futuro já começou a ser preparada. Ela parte da certeza de que as guerras no futuro começarão no campo digital. E as armas estão em preparo, quer dizer, criação, acumulação, teste e treinamento. Esta é a conclusão de novas revelações dos documentos trazidos por Edward Snowden, e agora divulgados em “The Digital Arms Race: NSA Preps America for Future Battle” (Der Spiegel International, 17/01/2015) , num artigo por Jacob Appelbaum, Aaron Gibson, Claudio Guarnieri, Andy Müller-Maguhn, Laura Poitras, Marcel Rosenbach, Leif Ryge, Hilmar Schmundt and Michael Sontheimer (há um versão em alemão no Der Spiegel Online).

    As novas revelações mostram que a National Security Agency está investindo 1 bilhão de dólares nas preparações prévias para uma tal guerra, através de um programa chamado “Politerain”, cujo nome pode ser traduzido por “Chuva cortês”. Este é monitorado por uma operação chamada “Tailored Access Operation””, (talvez “Operação de Acesso Sob Medida”), cujo alvo é “quebrar defesas e invadir” outras redes de computadores. A operação conta com o apoio dos serviços de espionagem dos outros países membros do “Grupo dos Cinco Olhos”, que, além dos EUA, inclui o Reino Unido, o Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia.

    Esta T.A.O. vem desenvolvendo uma série de programas (um dia será preciso escrever uma tese de doutorado sobre a origem e o porquê destes nomes esdrúxulos que os Serviços Secretos utilizam, inclusive no Brasil). Entre eles estão: Passionatepolka (Polca Apaixonada ou Passional), para quebrar as defesas de “cartões virtuais”; Berserkr (este eu não sei traduzir), para implantar parasitas em outros sistemas; e Barnfire (Fogo no Galpão – sinceramente, 
    parece coisa de gaúcho), para apagar dados em computadores do inimigo.

    O objetivo destes programas é, no caso de uma guerra, atacar e paralisar o fornecimento de energia e água, indústrias, hospitais, transportes (incluindo aeroportos e ferrovias), comunicações e last, but not least, o fluxo financeiro do inimigo, além de suas instalações militares virtuais ou não.

    Um dos problemas, assinalam os autores, destas armas digitais é que elas não estão submetidas a nenhum controle ou regulamentação internacional, ao contrário, por exemplo, das armas nucleares, químicas ou biológicas, ou mesmo as convencionais. Aliás, a conclusão do próprio Snowden é que esta regulamentação e controle transnacional é primeiro passo absolutamente necessário para colocar algum tipo de freio nas ações de organismos como a 
    NSA. A ausência deste controle termina por facilitar a realização de operações fora do controle do próprio sistema judiciário nacional, como ocorre nos Estados Unidos.

    Dentro da visão apocalíptica, estamos vivenciando a primeira etapa desta guerra já em preparação, que é o controle massivo do mundo cibernético e a construção do arsenal a ser usado quando do conflito aberto. A segunda etapa será o da implantação dos dispositivos da ofensiva nos sistemas do inimigo. A terceira será a de dominar as operações deste, imobilizando-o ou pelo menos comprometendo seriamente sua capacidade de ação, seja defensiva ou ofensiva.

    Algumas operações já utilizadas foram “testes” da eficácia destas armas, além de terem seus objetivos específicos. Uma destas operações foi a da “Stuxnet”, uma sabotagem viral do programa nuclear iraniano, praticada em conjunto pelos EUA e Israel. Outra foi a operação, “Regin”, cujos dispositivos serviram para espionar a Alemanha (inclusive a chanceler Angela Merkel), a Comissão Europeia e as telecomunicações da Bélgica (qual será o nome da operação que espionou a presidenta Dilma e a Petrobras? “Copacabana Beach”?, “Cybercaipirinha”?). 

    Outra operação consistiu em implantar “nódulos”, ou “olhos e ouvidos” para monitorar atividades em sistemas como o Yahoo e o Facebook.

    É claro que estas operações compreendem a  montagem de sistemas defensivos contra ataques de outros países. Segundo os documentos revelados, os principais alvos das operações defensivas são a Rússia, a China, o Irã e... a aliada (!) França, que não pertence ao grupo dos “Cinco Olhos”. Assim mesmo, os documentos revelam que nos últimos anos 1.600 computadores da NSA foram invadidos com sucesso por ataques vindos de fora, sendo que a principal suspeita é a China.

    Dois outros campos de operação completam este quadro digno de um Asimov ou Júlio Verne. São eles:

    1) O treinamento dos agentes operadores para não deixar rastros.
    2) O establecimento de um sistema interno de espionagem, para autocontrole – sempre precário – dos seus próprios agentes.

    Afinal, segundo o ditado, espião que espiona espião tem hipersupergigabites de perdão.
  • Terrorismo em tempos de selfie
  • 21/01/2015 18:44


  • Flávio Aguiar

    Confesso que o caso que mais me intriga no episódio do Charlie Hebdo e seus desdobramentos é o de Amédy Coulibali, o que matou e morreu no supermercado. Ele gravou um macro-selfie, em vt, confessando sua filiação ao Estado Islâmico. Se ele foi financiado pela Al Qaeda, foi uma heresia. Um modo de afirmar a sua “individualidade”. Ele sabia que ia morrer, ao contrário da maioria de nós, que sabe que vai morrer... um dia. Não, ele tinha data marcada. Ainda não estava na agenda, mas era para o que ele estava se preparando. Digamos, um suicídio controlado, levando muita gente com ele, como de fato ele fez.

    Surgiram teorias que citam a introjeção da inferioridade como causa da atitude violenta, ou a educação para ser um teocrata. No primeiro caso, Coulibali e os dois irmãos Couachi teriam se transformado numa panela de pressão cuja explosão era inevitável, com o poder de uma autoclave. No segundo caso, eles viveriam dentro de uma autoclave teocrática que os transformou em panelas de pressão dentro do estado laico francês, cuja explosão também era inevitável.

    Pode ser.

    Mas fico com a hipótese – quase certeza – de que vivemos a “era dos selfies”, dos “individualismos exacerbados”. Assim como, segundo o Hobsbawm, já vivemos a “Era das Revoluções”, a “Era dos Extremos”, etc. Ele quis sair do anonimato. Conseguiu. Teve seus vários minutos de fama, que o enorme selfie do vt lhe garantiu. Ele passou para a eternidade. Durante uns poucos minutos, mas passou.

    Hoje em dia o indivíduo, ou seu simulacro, se olha na tela, telinha ou telão, e vê o mundo à sua frente: sua imagem, para a efêmera eternidade. Isto acontece com o Amédy e também com o cidadão (?) que se olha embaçado no reflexo da tela e se põe a insultar (ao invés de criticar) o governante, o desafeto, a namorada, etc. É o suprassumo do isolamento.

    Agora, alguém pôs as armas nas mãos do Amédy. Ele não as conseguiu sozinho. Alguém lhe deu dinheiro para tanto, outro alguém fez a entrega. Outro mais adiante entregou os documentos, e mais ainda um outro fêz vista grossa, ou seja, alguém e alguéns lucraram muito com isto. Dentro e fora do Estado laico. E vão ficar impunes.

    Antigamente se dizia, para resolver um crime: “cherchez la femme”. Hoje, se pode dizer: “cherchez la grana”.

    Já o caso dos irmãos Couachi é um pouco diferente. Órfãos, fizeram um pacto de morte. Só faltou (talvez, vá se saber) aquele ritual de cortar os pulsos e misturar os sangues, coisa hoje evitada pelo temor de doenças várias. Conseguiram: morreram como a dupla de pistoleiros ao final de “Butch Cassidy”, com o Robert Redford e o Paul Newmann. Correndo e atirando sobre o exército contrário. Pelo menos esta é a versão oficial. Vá se saber quem imitou o filme, se a dupla ou a versão oficial. Ou ambos. Porque depois daquele atirar no policial inerme eles estavam condenados à morte. Extra-oficialmente. (E não estou justificando a covardia deles, quero deixar bem sublinhado).

    O que quero sublinhar é que o Estado laico às vêzes não é tão laico assim. É laico na letra da lei, e assim deve ser de fato, mas como o Estado é a ponta (grossa, muito grossa) do iceberg que de fato governa o mundo, há gente na parte visível do iceberg e outros na parte invisível que às vezes se acha e se dá os poderes de Deus. Ou do Diabo, não sei muito bem. Mas tanto faz.

    E o indivíduo isolado, nas era dos “individualismos exacerbados”, pode se transformar num rastilho de pólvora, De nitroglicerina melhor dizendo, e acionada pelo controle nada remoto da infinita reprodução das imagens.

  • Um computador é uma casa, duas casas, muitas casas...
  • 21/01/2015 18:42


  • Flávio Aguiar

    Os especialistas em segurança no computador – o que envolve desde o hacker que quer acesso à sua conta bancária, ou suas fotos íntimas, até a National Security Agency dos EUA, o Mossad em Israel, ou seus equivalente na China, Rússia, Coreia do Norte, etc., ou simplesmente sua ou seu ex- que para vingar-se quer explodir seu laptop – recomendam que a gente pense no nosso aparelho como numa casa. Uma casa, afinal, é um lugar protegido, mas que têm aberturas para o exterior, por onde o mal entra ou sai.

    “É preciso manter tudo fechado e chaveado”, dizem eles. Isto equivale a manter os defensivos, no caso da computação, atualizados. Equivale também a evitar, se possível, as rotas que chamam os “amigos do alheio”, no caso, não só sites pornôs, a abertura de mensagens e anexos desconhecidos, mas inclusive “rotas perigosas”, como Java e Adobe, mas que nem sempre são evitáveis.

    Por isto se lembre: por exemplo, é mais fácil confiar sua declaração de Imposto de Renda a um contador em quem você confia, e recebê-la depois de pronta e enviada, do que fazê-la e enviá-la diretamente. Já recebi várias mensagens vindas da “receita federal” que eram claramente viróticas e dispostas a invadir minhas contas, embora na maior parte das vezes viessem a descobrir simplesmente minhas dívidas.

    Mas não dá para viver como um ermitão cibernético. Algum tipo de negociação com o mundo exterior se impõe. Então adote medidas drásticas. Por exemplo, sem querer justificar o personagem e seus adultérios: quando Brás Cubas, do romance de Machado de Assis, Memórias póstumas de..., decidiu estabilizar sua relação, digamos, não-ortodoxa, com Virgília, ele optou por alugar uma casa discreta, ao invés de arriscar-se nos cômodos de sua casa, na – pior – dela, que era casada, ou em hotéis mais ou menos seguros e inseguros.

    O que isto quer dizer? Quer dizer: tenha dois aparelhos (é caro, eu sei), um, por exemplo, Apple, que é mais seguro, ou Linux, e outro Windows, e faça as coisas separadamente. Vá ao Google – que é um passaporte para malwares e outras incomodações num, faça suas operações mais “íntimas” no outro. Isto não protegerá seus endereços, mas protegerá seus aparelhos.

    Não esqueça: tenha também um hardware externo, onde armazene tudo o que é importante, retirando os arquivos de seu computador de uso. Aliás, é melhor ter dois, um para as coisas importantes, outro para reproduzir estas e reter as coisas MAIS importantes dentre as mais importantes.

    Por fim, mesmo se não tiver votado nela, faça como a presidenta Dilma depois que foi vítima da NSA. Carregue sempre uma máquina de escrever portátil (ainda encontrada em sebos), para escrever o que você quiser de fato manter secreto. Sem papel carbono, por favor, esta inovação antiga que, jogado numa cesta de papel, pode resultar em revelações terrivelmente comprometedoras.

    Ou então escreva à mão.

    Publicado em 19/01/2015.